terça-feira, 29 de maio de 2012

Xucuru-Kariri produz alimentos em terra demarcada


Jorge Vieira – Jornalista


Cerca de 120 famílias do povo Xurucu-Kariri, da aldeia Fazenda Canto, no município de Palmeira dos Índios, a cerca de 140 km de Maceió, produzem alimentos na área retomada em 31 de outubro de 2011, denominada Fazenda Salgado (184 hectares), declarada parte do território tradicional, em 2010, pela portaria do então ministro da Justiça Tarso Genro.

Com o apoio da Rede de Educação Cidadã (RECID) e do deputado estadual Judson Cabral (PT/AL), sementes e óleo diesel, respectivamente, grupos familiares estão produzindo coletivamente feijão de corda, milho, feijão carioca, abóbora, macaxeira e melancia, além do cultivo de hortas comunitárias com a plantação de cebolinha, coentro, pimentão, alface, repolho, cenoura.

A produção tem como objetivo atender inicialmente a necessidade de alimentação dos membros da comunidade, enquanto que excedente será comercializado na feira livre do município. De acordo com o professor Gecinaldo Ferreira, um dos incentivadores do trabalho comunitário, os recursos arrecadados com a venda dos gêneros alimentícios serão revertidos no investimento da luta da comunidade, com passagens e alimentação quando do deslocamento de suas lideranças até os centros administrativos em busca de melhorias para as comunidades junto aos órgãos públicos. Segundo informações colhidas junto aos produtores indígenas, o quilo de feijão de corda verde será vendido ao preço de R$ 5.00.

Animados com o resultado da lavoura, visto principalmente pela a qualidade do feijão e do milho garantido pelo sistema de irrigação, com a chuva que está caindo na região, já prepararam cerca de 20 hectares para o cultivo da batata doce, macaxeira, milho e feijão.

Em tom de desabafo, jovens indígenas expressaram com orgulho, afirmando que o roçado demonstra o contrário do preconceito que é por alguns de que índio é preguiçoso. O que falta, para eles, é terra para trabalhar e não precisarem se deslocar até as cidades ou para a região açucareira para trabalharem como boia-fria.

O presidente da Associação Comunitária, Gecivaldo Ferreira, destacou a importância do urgente posse da terra demarcada, afirmando que só assim poderão suprir as necessidades das comunidades, as despesas com a luta em defesa dos direitos, especialmente na conquista do território.

Para o deputado Judson Cabral, apoiar a luta do povo Xucuru-Kariri “é reconhecer e garantir os seus direitos históricos e fazer cumprir o que determina a Constituição Federal”.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Gilberto Gonçalves e o jardineiro cruel


Edberto Ticianeli
 
José Soares, o Joinha, é um mestre na arte de contar histórias. Para ser sincero, prefiro ouvir a versão do Joinha sobre um fato do que saber como verdadeiramente ele se deu.

Em Alagoas, Joinha já é uma lenda viva. Participou ativamente do movimento estudantil e das lutas por democracia no final dos anos 70. Sempre teve um olhar aguçado sobre os fatos políticos, além de ser responsável por tiradas antológicas.

Mas vamos ao que interessa, ou seja, as histórias do Joinha.

Hoje, pela manhã, o encontrei chegando ao seu escritório de advocacia, que fica ao lado da Assembleia. Paramos para conversar e logo estava ele contando a sua versão sobre um ocorrido durante a prisão dos vereadores de Rio Largo.

Segundo Joinha, o ex-deputado Gilberto Gonçalves, morador de Rio Largo e que também já esteve detido, em 2007 - pelo seu suposto envolvimento no desvio de mais de 300 milhões da Assembleia – acompanhava de sua casa o que acontecia na Câmara de Rio Largo.

Um amigo lhe telefonava o tempo todo para informar o andamento da operação policial. Com as prisões concluídas, o ônibus com os vereadores presos partiu para Maceió.

- Gilberto, eles estão saindo agora e vão passar na porta da sua casa dentro de instantes – avisou por telefone celular o seu amigo.

O ex-deputado foi para a calçada, esperando ver os vereadores, alguns deles responsáveis por críticas a ele. Ao seu lado, o seu jardineiro dava os últimos retoques na grama e plantas do seu jardim.

O ônibus se aproxima e, por um problema de trânsito, para exatamente em frente à casa de Gilberto Gonçalves. Uma das mulheres presas vê o ex-parlamentar, não se contém e grita para ele.

- Não fique aí botando essa cara de honesto. Eu lhe conheço. Você já esteve preso também – e continuou por alguns minutos a detratá-lo de forma agressiva, usando inclusive palavrões.

Para surpresa de todos, GG ficou parado, tranquilamente ouvindo as agressões. Quando o ônibus partiu, ele se voltou para o jardineiro e perguntou em voz alta para que os vizinhos escutassem:

- Rapaz, o que você fez no jardim dessa mulher para ela lhe tratar assim – disse isso e entrou.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

De ex a anti-esquerdistas

Emir Sade - Blog do Emir


Isaac Deutscher tem um artigo que ele intitula “De hereges a renegados”, delineando o caminho de gente que começa rompendo com teorias e posições esquerdistas, para terminarem como furibundos anti-esquerdistas. São figuras que povoam a direita de todo o mundo, ao longo do tempo.

Alguns se valeram do stalinismo para terminarem condenando a Lenin e, finalmente, a Marx e ao marxismo. Não por acaso uma proporção não desprezível deles teve origem trotskista, para absolutizar o “totalitarismo stalinista”, passando a identificá-lo com o nazismo e dali estão já a um passo do liberalismo e do anti-comunismo.

Há os tipos padrão, os que foram de esquerda, militantes mesmo, de repente “se arrependem”, largam tudo, renegam, denunciam seu passado e seus companheiros, os ídolos em que acreditaram cegamente, para se entregar de armas, bagagens e, frequentemente, emprego, para a direita. 

Alguns se mantem na esquerda, no seu espaço mais moderado, com um tom fortemente anti-esquerdista, denunciando o que não seria “democrático” em correntes da própria esquerda. São adeptos fortes de alianças com correntes do centro e mesmo da direita, tendem a diluir as distinções entre direita e esquerda.

Outros, os casos mais conhecidos, se tornam militantes da direita, de suas correntes mais fundamentalistas, no velho estilo anti-comunista da guerra fria. Ganham espaços na mídia de direita – desde direção de revistas a colunas em jornais, convites para a televisão – como prêmio pela sua adesão.

Há ainda escritores, intelectuais, músicos, decadentes, em triste fim de carreira, que abandonam posturas rebeldes que tiveram no passado para submeter-se aos donos do poder e dos meios de comunicação em troca de espaços para escrever, prêmios, elogios, que confirmam sua perda de dignidade no fim da carreira.

domingo, 20 de maio de 2012

Governo e Marketing


Por Marcos Coimbra - Correio Braziliense
De uns tempos para cá, difundiu-se uma nova teoria sobre a popularidade de Dilma. À boca pequena, os “grandes entendidos”, os que “sabem tudo de Brasília”, não têm dúvida: é coisa de João Santana!
Para quem não sabe, é bom logo explicar. Ele é o profissional de marketing que assessora a presidente desde o começo do governo. Foi o responsável pela campanha que a levou à vitória em 2010.
Sua proeminência data de quando assumiu a campanha de Lula na reeleição. Embora o ex-presidente já tivesse voltado a ser favorito desde o início de 2006 – quando o eleitorado digeriu e superou o famoso “mensalão” -, aquela não foi uma eleição tranquila. Até os últimos dias do primeiro turno – e o começo do segundo -, a oposição política e social ainda acreditava que tinha condições de derrotá-lo.
Moveu tudo que estava ao alcance, contando com a participação entusiasmada dos principais veículos de comunicação nacionais - que não titubearam no endosso à candidatura de Geraldo Alckmin (mais, até, que o próprio esperava). Mas Lula resistiu e terminou vencendo.
E João Santana soube fazer uma televisão que o ajudou (em muito). Como foi, quatro anos depois, um ator fundamental na campanha de Dilma. 
Santana enveredou pelos caminhos do marketing político e eleitoral através de Duda Mendonça, de quem cedo se tornou um dos mais importantes colaboradores. Com o ostracismo de Duda – o coordenador da campanha de Lula em 2002 -, provocado por suas intempestivas declarações à CPI que investigava as denúncias contra o mensalão, ele assumiu o protagonismo.
Desde a posse de Dilma, Santana a tem assessorado em questões de comunicação. Em especial, é quem se encarrega dos pronunciamentos na televisão. Dirige as gravações, opina a respeito do que ela diz, sugere textos mais facilmente compreensíveis pela população.
O que faz é algo de que nenhum governo democrático moderno prescinde. Não há chefe de governo contemporâneo que não tenha “seu marqueteiro” – ou uma empresa que faz as vezes. A comunicação de massa é relevante demais para ser deixada sob a responsabilidade de pessoas sem qualificação específica – ou para guiar-se exclusivamente pela “intuição” do governante.  
Mas não é por ter essa função que João Santana se tornou, nas últimas semanas, personagem da crônica política e assunto dos comentaristas.
Com frequência cada vez maior, ele passou a ser discutido não pelo que é, mas por algo que lhe atribuem: o papel de mágico.
Entre os muitos que não entendem os bons números da presidente, estão os que acham que a resposta é que são “coisa do João Santana”. O que equivale a dizer que o único motivo de ela ser bem avaliada é o marketing do governo.
Mais ainda: que Dilma é aprovada porque alguém - o marqueteiro - “manipulando” as “técnicas do marketing”, “vende gato por lebre”.
Ela, a “responsável pelo ministério”, se tornou a “faxineira ética” por “obra do marketing” – ou seja, de João Santana. Ela, a fonte dos problemas do governo, se apresenta como solução, “por obra do marketing”. 
No fundo, é mais uma ficção criada pela oposição - particularmente a mídia oposicionista - para não reconhecer um fato básico de nossa vida política: que a larga maioria da sociedade aprova, com racionalidade e fundamentadamente, o governo que Dilma realiza.
Ao invés de tentar mostrar a “falsidade” dessa boa avaliação – atribuindo-a à “ignorância da população”, à “desinformação das pessoas”, ao “clientelismo político”, à “compra das consciências pelo Bolsa-Família” e, agora, ao “marketing do governo” – melhor fariam as oposições se começassem sua análise admitindo que a sociedade aprova o governo por razões concretas. Que está satisfeita objetivamente, e não por estar sendo enganada.
Só assim poderá redescobrir como falar com o país. E não ficar falando sozinha. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Indecisões tucanas em Alagoas


Edberto Ticianeli

São evidentes os sinais, no ninho do tucanato alagoano, de que ainda não há um projeto eleitoral definido para a sucessão do governador Teo Vilela (PSDB) em 2014. A principal manifestação desta indefinição é a pulverização dos candidatos à prefeitura de Maceió que têm participação no governo do estado.

Sem um projeto definido e unificador, as forças dominantes da economia alagoana sentem dificuldades em formar novos quadros políticos e, mais grave ainda, não conseguem enquadrar as forças acessórias. Os projetos eleitorais prevalecem, provocando o salve-se quem puder.

O dilema eleitoral dos tucanos na escolha do seu candidato ao governo em 2014 é a falta de uma liderança capaz de enfrentar a forte candidatura de Renan Calheiros (PMDB), que dá sinais claros de que pretende chegar ao governo de Alagoas. Os representantes políticos da indústria sucroalcooleira não estão nada satisfeitos com esta possibilidade.

Candidatos ao governo

Na corrida para ocupar o espaço de candidato do grupo, o vice-governador José Thomaz Nonô (DEM) tem posição privilegiada e vantagem sobre os demais. Ele assumirá o governo quando Teo Vilela se afastar em 2014 – vai disputar o Senado -, podendo candidatar-se à reeleição. Entretanto, os analistas consideram que ele seria facilmente derrotado por Renan Calheiros.

Nonô não aceita esta avaliação. Além disso, ele aposta que o deputado Jeferson Moraes (DEM) tem condições de chegar à prefeitura da capital e lhe garantir o apoio na disputa pelo governo em 2014. Jeferson Moraes, por sua vez, tem projeto próprio e quer chegar à prefeitura para pensar em voos mais altos. Ele garante que a sua candidatura é para valer.

Outro pretendente a ocupar o Palácio República dos Palmares é o senador Benedito de Lira (PP), que vem de uma vitória espetacular na última eleição, quando foi o mais votado na corrida para o Senado. Biu de Lira já percebeu que a indecisão abre espaço para que se coloque na relação dos pretendentes. O seu candidato à prefeitura é o vereador Marcelo Palmeira (PP), que ainda não conseguiu aparecer bem em nenhuma pesquisa.

Rui Palmeira

De posse de pesquisas, os tucanos acreditam que o melhor nome do grupo para disputar a eleição em Maceió é o do deputado federal Rui Palmeira (PSDB). Ele teria potencial para crescer na campanha e, se eleito, receberia investimentos para administrar Maceió em ritmo de pré-campanha para a disputa do governo em 2014. Seria o melhor adversário para barrar as pretensões de Renan.

Rui Palmeira tem a seu favor o apoio do pai, Guilherme Palmeira, e a experiência do grupo que esteve no poder em Alagoas por décadas. O seu nome transita sem dificuldades entre os formadores de opinião do estado, além de ter se destacado, como deputado estadual, por não ter se envolvido no processo dos Taturanas.

A dúvida sobre a candidatura de Rui Palmeira reside na sua falta de experiência em disputa majoritária e na sua pouca inserção entre os eleitores da periferia. Estas incertezas têm feito com que o governador Teo Vilela tenha silenciado quando o assunto é o candidato de sua preferência.

Carimbão

Outra candidatura, que também nasce das forças políticas que ocupam o República dos Palmares, é a do deputado federal Givaldo Carimbão (PSB). Mesmo ainda não estando atrelado a nenhum projeto estadual para 2014, Carimbão joga na estratégia nacional do seu partido, que trabalha abertamente o nome do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), para cacifá-lo na sucessão da presidenta Dilma Roussef. A candidatura de Carimbão ofereceria palanque para que Eduardo Campos aparecesse para os alagoanos.

O PPS também ensaiou lançar a candidatura de Nadja Baía, mas parece ter desistido do intento. Pelo menos é o que indica a ausência dela na mídia.

Teo Vilela

Se o estilo Vilela de fazer política, sempre cauteloso, naturalmente já retardaria as tomadas de decisões, imagine a dificuldade que está tendo o governador ao lidar com tantas candidaturas à prefeitura de Maceió. O agravante é que ele, como futuro candidato majoritário, não pode atropelar ninguém sob o risco de perder apoios importantes no futuro.

Vilela aposta que a escolha se dê por seleção natural. Pode estar cometendo um erro. O prefeito eleito vai influir diretamente na eleição para o governado estadual e o Senado em 2014. A sua indefinição agora pode levá-lo a receber a mesma moeda no futuro. É bom lembrar que Teo enfrentará Fernando Collor (PTB).